sábado, novembro 15, 2003

Jornalistas portugueses no Iraque


O dia de ontem foi de angústia para o jornalismo português: Maria João Ruela levou um tiro no Iraque; Carlos Raleiras foi raptado no mesmo sítio.
Sejamos solidários.
Numa altura em que a TSF anuncia que Carlos Raleiras foi encontrado, o Sindicato dos Jornalistas (SJ) considera que o Governo é o principal responsável pela falta de condições de segurança dos jornalistas portugueses no Iraque. Em comunicado, o SJ alerta ainda para a necessidade de as empresas garantirem aos jornalistas uma melhor preparação para este tipo de missões.
Reloura, um dos membros do grupo Jornalistas da Web, enviou o seguinte comentário, sob o título "fim do jornal impresso e da ditadura do lide?"

"Especialistas em veículos comunicacionais,intusiastas da internet e defensores do chamado "jornalismo literário" ou "new journalism" afirmam que se o jornal impresso, tal como conhecemos, não mudar radicalmente suas estruturas textuais em poucos anos estes só serão encontrados em museus. O motivo seriam as "novas tecnologias" mais rápidas, dinâmicas, interativas e, muitas vezes, gratuitas.
Com o modelo da pirâmede inversa, com lide, sublide, a ditadura da pauta , matérias cada dia mais curtas e descartáveis, fotos compradas de agências internacionas, ou seja todos os jornais publicam a mesma coisa, e com a "teoria da falta-de-tempo-e-saco-do-brasileiro-para-ler"o jornal impresso torna-se um meio de comunicação que tem noticiado tudo as que os outros veículos já noticiaram no dia anterior sem acrescentar ou se aprofundar muito em nada, ou seja, algo dispensável!
Uma das alternativas, por eles apontadas, para a sobrevivência deste importante meio seria a adoção de grandes reportagens, matérias investigativas mais detalhadas com uma narrativa mais literária do que propriamente jornalística, ou seja, sem lide e sublide com poucas "short-news" já que essas os outros meios já dão.
Defensores do lide afirmam que ninguém tem mais tempo e paciência para ler matérias grandes e se alguém quizer saber mais detalhes sobre um assunto noticiado durante a semana é só recorrer a uma revista semanal ( que por sinal adotam a mesma técnica de redação dos jornais diários com os mesmos lides e coisa e tal).
Então seria este mesmo o fim do jornal impresso, o veículo em que os consumidores mais confiam?O fim do hábito da leitura em bancos de praças e lotações? O final do grande jornalismo?Ou será que há realmente espaço, mercadologicamente falando,para as grandes reportagens?"

Por seu lado, Raphael Perret, considerou que "A maior parte do conteúdo das revistas é formada por reportagens, que têm uma estrutura técnica diferente da noticia tradicional, que usa o modelo da pirâmide invertida. As reportagens se aproximam muito mais do new journalism, já que contam histórias com um aprofundamento maior que o da notícia. O maior exemplo é a Veja, que tem uma redação perfeita (estou falando de forma, não de conteúdo :-), sem utilizar lide, sublide ou qualquer outra aracterística do modelo da pirâmide invertida. Até porque os textos são quase editorializados, impedindo que se utilize a objetividade do lide.
Quanto ao "fim do jornalismo impresso", não gosto de profecias, mas acho que mudanças deverão ser implantadas como as que ocorreram há algumas décadas, quando os jornais se viram ameaçados pela TV. Acho que isso acontecerá naturalmente e os jornais continuarão a existir, mesmo com rádio, TV, World Wide Web e tudo o que vier".

Aguardam-se outros comentários...

domingo, novembro 09, 2003

O destaque de hoje vai para o Diário de Notícias.
Na edição deste domingo, vem um dossier onde se publica a opinião que os portugueses têm sobre o jornalismo que é feito actualmente em Portugal, assim como o tratamento jornalístico que é dado a alguns casos.
Para além disso, ainda se pode ler uma entrevista com Joaquim Letria que considera que "As televisões são mais permeáveis à manipulação".

sexta-feira, novembro 07, 2003

Sondagem indica que maioria acredita nos jornalistas

Sondagem indica que maioria acredita nos jornalistas


Na sec��o de Media do P�blico de hoje, vem um artigo onde se pode ler o seguinte:
A grande maioria dos portugueses acredita na Comunica��o Social, mas considera que os jornalistas agiram mal ao divulgarem o conte�do de escutas telef�nicas a dirigentes do PS no �mbito do processo Casa Pia, revela uma sondagem da TNS Euroteste, ontem divulgada pela revista "Vis�o". Entre os inquiridos, 77 por cento acredita no que relata a Comunica��o Social e dez por cento declara n�o acreditar. Entre os que afirmam acreditar, dez por cento diz que cr� "totalmente", enquanto 67 por cento afirma acreditar apenas "em parte" nos �rg�os de comunica��o social. Oito por cento dos entrevistados n�o acredita "em parte" do que l� e v�, enquanto a mesma percentagem de inquiridos diz-se descrente da totalidade das informa��es divulgadas. Seis por cento escolheram a resposta "n�o acredita, nem deixa de acreditar" e um por cento n�o soube ou n�o quis responder. A maioria dos inquiridos do estudo - baseado em 600 entrevistas - discorda, contudo, da divulga��o pelos "media" das escutas telef�nicas feitas aos dirigentes do PS. Um grupo de 42 por cento acha que foi negativa a op��o de divulgar as escutas, contra 37 por cento que entende o contr�rio.

sexta-feira, outubro 31, 2003

Uma relação de amor e ódio, por Miriam Abreu


Os jornalistas têm uma vida pessoal precária, muitas vezes abdicam de relacionamentos, trabalham excessivamente e vivem em ambientes de trabalho competitivos. Estes profissionais são muito solicitados, muitas vezes humilhados e percebem que a vida está sendo consumida pelo trabalho. Para você jornalista, isso pode não ser nenhuma novidade, mas para outras pessoas sim. A análise faz parte de uma pesquisa, realizada pelo advogado e psicólogo Roberto Heloani, que entrevistou 44 jornalistas [brasileiros], com os quais aplicou testes e realizou discussões em grupos. São mais de mil páginas de transcrições de fitas.

Heloani decidiu pesquisar a vida do jornalista por este ser um formador de opinião. "Desta forma podemos aprender um pouco mais sobre eles, saber um pouco mais da vida deste profissional, que passa uma imagem glamourosa, vendida pela própria mídia", comenta o pesquisador.

Apesar de ter uma convivência freqüente com jornalistas – ele já realizou cursos na área – Heloani confessa que se surpreendeu com o resultado da pesquisa. A primeira surpresa, segundo ele, é com a péssima qualidade de vida do profissional de imprensa. "Eu já sabia que jornalistas trabalham muito, mas eles andam estressados, apesar de saber driblar o cansaço. Ele agüenta uma carga de trabalho pesada porque é um apaixonado pela profissão. Existe uma relação de amor e ódio pelo jornalismo".

Os jornalistas, segundo a pesquisa, abdicam de uma vida a dois pela profissão. Algumas mulheres, na faixa dos 25 anos aos 30, chegaram a dizer para Heloani que não têm tempo para namorar. "O estilo de vida do jornalista compromete esta relação".

Sem mencionar nomes, Heloani contou a história de um jornalista que goza de certo poder numa grande emissora de TV do país. "Este jornalista era casado com uma psicóloga. Muitas vezes eles não se viam, até que um dia foi demais. Quando ele chegou do trabalho, ela estava dormindo. A esposa acordou e não viu o marido, o que era comum. Mas quando ligou a TV, viu que o marido estava na Argentina, no meio de um tiroteio. Foi demais para a psicóloga, que pediu demissão. Hoje ele é casado com uma jornalista. Acho que pelo fato de terem a mesma profissão, a compreensão é maior".

Quanto à saúde, a pesquisa mostra que poucos cuidam dela. Os jornalistas se queixam que não têm tempo para procurar um médico. Heloani disse que, além de terem pouco tempo para se alimentar, os profissionais consomem excessivamente café e álcool, este para relaxar depois de um longo dia de trabalho. "Eles também reclamam da questão do sono. A maior parte dorme pouco, em horários irregulares devidos aos plantões. Aqueles que têm cargos de chefia ficam ansiosos porque existe a preocupação pela responsabilidade do produto". O pesquisador afirma que a insônia é um dos sintomas do estresse e pode acabar em depressão.

Quase todos os entrevistados disseram que o ambiente de trabalho é competitivo, enfatizaram a cobrança excessiva e também a precariedade das condições em muitas redações. Muitos deles também exercem várias funções ao mesmo tempo. "Hoje, o profissional de imprensa é multifuncional, polivalente. Devido ao próprio processo de informatização, o jornalista tem que ser tudo, tem que ser uma equipe".

A pesquisa também mostrou que o individualismo é uma característica marcante. Segundo Heloani, a profissão está sendo moldada à competitividade. "Para sobreviver na profissão, o jornalista acha que seu colega é o seu principal empecilho".

Para o jornalista, o sindicato da categoria é ineficaz. "É esta descrença e o questionamento sobre a forma coletiva que também faz do jornalista um ser individualista". De acordo com Heloani, a desconfiança e descrença nas entidades representativas constroem a fragilidade da profissão.

"O jornalista está seguindo um caminho extremamente perigoso. Acho que o processo de conscientização é lento. Se continuar assim, ele vai comprometer sua saúde física e mental", conclui.

Dica de Eduardo Henrique Furlan, do Grupo Defesa do Jornalismo.

quinta-feira, outubro 30, 2003

Blogues

Blogues, moda ef�mera ou meio de comunica��o de futuro?

Este � o tema do encontro informal de Blogues que ir� decorrer, hoje, 30 de Outubro, na Sociedade de Geografia de Lisboa.
Para mais informa��es, clicar aqui.

sexta-feira, outubro 24, 2003

Dando seguimento ao post do dia 7 de Outubro, acerca do comentário que foi enviado para o grupo Jornalistas da Web, intitulado "Weblog é só ferramenta", outras opiniões têm sido enviadas para o grupo.

Uma delas é de Jotaesse que, a determinada altura escreve que "...acho que esta polemica deriva do fato de que muitas vezes se usam palavras que substituem o "conteudo pelo continente". Por exemplo: usa-se "blog" no lugar de "blogging", ou seja, "blog" está para "jornal", assim como "blogging" (ou bloguismo...) estaria para "jornalismo"... e até "blogger" (ou blogueiro, ou bloguista...) poderia estar para "jornalista" (mas não para jornaleiro). É apenas uma comparação,tentando mostrar a importancia que se confere ao blogging, atualmente, pela expressão que ele tem, hoje, ao permitir a "qualquer um" veicular suavoz, seus pensamentos, suas idéias, sua forma de ver as coisas (suas, pessoais, ou gerais), via internet, num verdadeiro fenômeno de caráter social, pois é a primeira oportunidade que "qualquer um" está tendo para mostrar que existe, como ser humano, como cidadão, ou até mesmo como "simples" pessoa quando escreve seu diário pessoal, que considero uma forma válida de expressão cultural (e não uma bobagem...). tudo sem gastar quase nada e sem usar ferramentas de gestão de conteudo tecnologicamente mais avançadas e eficientes (se bem que nem sempre eficazes...), e, por isto mesmo (pelo custo...) inacessíveis pela grande maioria das PESSOAS.
Mas quem abordou com profundidade este tema, ainda em junho de 2002, foi o gurú Glenn "InstaPundit" Reynolds (law professor da University of Tennessee), ao escrever o artigo a que chamou de "FAQJ: Frequently asked questions by journalists", e que vale uma análise prá quem gosta de uma leitura e uma abordagem interessantes".

Nicolau Centola referiu que "...o problema do blog, na minha humilde opinião, não é a nomenclatura, mas está no fato de que, na maioria das vezes, é forçar a barra achar que blogging (para usar o termo correto) é jornalismo. NÃO É! Isso na esmagadora maioria dos casos. Pode vir a ser um dia? Sim, pode. Mas ainda não é. E acho que todos concordam com isso. Com raríssimas exceções, a grande maioria está mesmo interessada em contar o que viu na TV, comeu ontem, fez de manhã etc etc etc.
Espero sinceramente que o blog (para usar o termo certo) venha a ser um dia um veículo tão importante quanto um jornal. Seria uma ferramenta maravilhosa para tornar a Internet novamente um veículo anárquico (na concepção correta do termo). Mas estamos longe disso, vocês não acham? O que não dá é a gente dizer que é uma coisa que a gente gostaria que fosse mas ainda não é.
Os blogs (e o blogging) hoje têm alguns problemas graves:
- a grande maioria do conteúdo é lixo
- poucas são as iniciativas consistentes no campo do jornalismo
- os recursos para criação, manutenção e melhoria dos blogs ainda são incipientes, e se luta com diversas limitações
- a arquitetura é falha e os grandes hospedeiros ainda lutam contra erros, saídas do ar etc
Quando tudo isso for resolvido, e quando começar a ser usado com o poder que a ferramenta tem, o blogging PODE se tornar uma nova mídia. Por hora, estamos ansiosos no aguardo"

Por seu lado, Fernando, respondendo a Nicolau Centola esclarece que "...no caso dos primeiros dois defeitos que você citou em relação aos blogs, eles podem ser aplicados a inúmeros jornais que andam por aí. Concordo com você que a coisa ainda
é incipiente e, na maioria dos casos, terá pouco a ver com jornalismo. Mas é preciso considerar que:
- os blogs podem servir de fonte para algumas matérias. Por exemplo, se você quer saber como as pessoas consomem a cultura pop, poderá fazer uma parte da matéria consultando posts e comentários em blogs mais dirigidos a esse tema.
- Os blogs relacionados ao jornalismo indicam oportuniades de inúmeros estudos na área, que vão da interatividade à recepção ativa das informações".

Um post que não foi assinado refere que "...A discussão sobre blog e jornais, ou, blogging e jornalismo passa por uma questão muito mais profunda: o que é jornalismo e o que está sendo praticado hoje? A notícia jornalística apresenta algumas características em sua essência como ineditismo, interesse geral, utilidade pública etc. Será que jornais impressos, revistas, telejornais e radiojornais atendem esse requisito quando produzem sua pauta e conteúdo?
O debate pode descer a uma profundida muito maior e derivar para a discussão sobre jornalismo, entretenimento, publicidade etc. Os blogs e o fenômeno
blogging parecem ser apenas um reflexo dessa mudança: a transformação do que podemos chamar de jornalismo tradicional (ou puro) - sem entrar no mérito da nomenclatura - para um jornalismo de entretenimento, aliando técnicas jornalísticas com ferramentas persuasivas da publicidade".

Já a opinião de Artur Araújo é a seguinte: "Não podemos perder de vista que blog é um formato, um suporte. O que vale é o que está dentro do formato... A "salvação" do jornalismo virá dos jornalistas.
Se fetichizarmos o blog, vamos começar a pensar como os barões da imprensa que, quando pensam em melhorar seus jornais, pensam em comprar máquinas novas ou mudar o visual de apresentação.
Bom jornalismo se faz com bons jornalistas... é tautológico, eu sei, mas o que quero dizer com isso é evitar ver um "brinquedinho" como a redenção do
mundo.
O Inter.Mezzo é bom não porque é um blog, mas porque tem gente qualificada produzindo-o. Por um acaso, essa excelente equipe produz em uma página no
formato de blog. Só isso. Se o Inter.Mezzo fosse um programa de tv, continuaria muito bom, se fosse um tablóide, também... Não vamos fazer o blog virar uma "buzz word", uma palavra mágica".

Alexandre Carvalho do Língua de Trapo faz as perguntas e dá as suas respostas. "E por que ainda há muito ceticismo em relação aos blogs aqui?
Na minha opinião, porque são poucos os bons exemplos. E quando encontramos algo que valha a pena, tem pouca audiência, raramente algum comentário. Agora pegue um blog que só tenha bobagens. Acontece justamente o contrário. Ou seja, aqui, muitas pessoas que têm acesso à Internet até já conhecem o conceito de blog, mas o consideram como mais uma forma de entretenimento e nada mais.
Pois é, aqui no Brasil contam-se nos dedos as iniciativas de se aliar blogs ao verdadeiro jornalismo. Enquanto em Portugal já há até congressos sobre blogs (...)
A própria Elisabete Barbosa, do Jornalismo Digital, nos dá vários exemplos de como esse conceito tem se desenvolvido por lá.
Considero os blogs ferramentas com muito potencial na área de comunicação, que merece estudo e análise. Se há muita baboseira por aí, há também espaços que merecem respeito e atenção. Mas será que os poucos exemplos que temos aqui no Brasil são suficientes para que se consiga ter um estudo sério e consistente sobre o assunto. Eu acho que ainda estamos muito longe de um padrão que justifique um estudo desse tipo. Se pegarmos os exemplos lá fora, aí justifica-se totalmente essa análise".


Uma conclusão eu posso tirar. Aqui em Portugal, pelos vistos, a blogomania é mais intensa do que no Brasil. Cá como lá, eles servem para tudo.
No entanto, ainda não fiquei esclarecido em relação à "ligação" entre os blogs e o jornalismo, assim como, qual dos dois é que vai prevalecer.
Aceitam-se comentários...

quarta-feira, outubro 22, 2003

Continuam a aparecer alguns comentários no Fórum que eu criei.

O mais recente é o da Rute Barbedo que escreveu o seguinte:

"Fim do jornalismo? Que absurdo! Tal como a saúde, a educação, os valores, os problemas e a resolução deles, o jornalismo nunca irá acabar. É simplesmente uma condição inerente à humanidade, pois já ninguém vive sem informação, sem ter que pensar ou mesmo inventar! A tecnologia apenas trará uma nova faceta ao jornalismo, adaptando-o ao resto das "ciências", de acordo com a evolução humana. Decadência? Sim, claro... Mas haverá algo que não passe por isso?"

Aguardam-se novos comentários; lá, ou aqui, tanto faz.

quarta-feira, outubro 15, 2003

Portal Imprensa

No Portal da Imprensa, foi criado um fórum subordinado ao tema "Até onde deve ir a liberdade de imprensa? Devem existir limites à informação?"

Curiosas e interessantes são, no mínimo, algumas das opiniões que lá existem.

terça-feira, outubro 14, 2003

Na edição de hoje do Portugal Diário, destaque para dois artigos, ambos interessantes e ambos da autoria do jornalista Miguel Marujo e que passo a reproduzir.


"Reutilização do trabalho de profissionais da informação carece de autorização prévia"


Jornalistas também são autores


A demissão de dois ministros do Governo e as convulsões na Justiça portuguesa têm trazido também para primeiro plano a comunicação social. Entre "exclusivos" e "investigações" em primeira mão assiste-se a notícias e reportagens repetidas ou imitadas em diferentes órgãos de comunicação social.
Como pano de fundo: os direitos de autor destes profissionais, as condições precárias em que laboram e a concentração em poucas empresas do sector. Por estes dias, o Sindicato de Jornalistas (SJ) apresentou publicamente as suas preocupações sobre o processo de fusão das empresas do grupo da PT/Lusomundo - que inclui as editoras do Jornal de Notícias, Diário de Notícias, 24 Horas, Tal & Qual e Grande Reportagem, entre outros títulos -, salientando que este "não pode afectar os direitos dos jornalistas, como o vínculo contratual, a antiguidade e a autonomia técnica da profissão".
Por outro lado, em Agosto de 2002, o núcleo sindical de jornalistas "online" do SJ elegia - entre vários aspectos sobre a credibilidade dos "media" electrónicos - a necessidade de reflectir sobre cláusulas de consciência para os jornalistas, o uso indiscriminado de artigos em diversas publicações da mesma empresa e os atropelos aos direitos laborais e de autor. Para o SJ, "qualquer reutilização do trabalho dos profissionais de Informação carece sempre de autorização prévia, caso a caso".
Isto vale para peças preparadas para um órgão que depois aparece "reproduzida" num outro título da mesma empresa. E quando essa "reutilização" é abusivamente feita por profissionais de outros jornais e sem qualquer citação dos trabalhos originais, como por vezes se acusam mutuamente títulos e jornalistas [ver texto "Jornais agressivos "pisam" ética"]?
Para Oscar Mascarenhas, presidente do Conselho Deontológico do SJ, esta atitude é "eticamente inqualificável". "Agora, nunca se atribui a investigação a outro órgão", sobretudo se é um concorrente "directo", diz. E exemplifica com outro caso, em que uma jovem estagiária, perante o reparo da fonte original não identificada, disse ser prática do seu grupo: "Uma vez publicada já se pode publicar sem citar". Não pode, argumenta Mascarenhas.
Para o editor-executivo do Tal & Qual, Luís Nunes, "alguns jornais a citarem-se mutuamente é impossível. O público-alvo de um 24 Horas e de um Correio da Manhã é o mesmo. E, nesse caso, seria admitir que o outro jornal tem boas histórias. Entre os semanários é a mesma coisa", diz. "Eticamente devia-se dizer". Ao órgão sindical chegam poucas queixas, esclarece o dirigente sindical: jornais, rádios e estações de televisão preferem fazer "queixa ou referência" dos eventuais plágios no seu próprio órgão de informação, atacando os que cometeram o abuso. O director do MaisFutebol, Luís Sobral, explica: "Não há tempo para a queixa formal. É tudo tão rápido" nos dias de hoje, que "nem vale a pena". Sobral, que duvida da regulação externa, insiste na tecla do respeito - "que não se ensina e que, infelizmente, muita gente não tem". A editora de Política do Público, Ana Sá Lopes, diz que não vale a pena queixar-se ao Conselho Deontológico do SJ, nem à Alta Autoridade para a Comunicação Social. "São ficções", acusa. "E que se desculpam por não haver queixas".
Outro aspecto, sublinhado por Oscar Mascarenhas, é a precariedade laboral em muitas redacções, que facilitam as pressões de administradores ou superiores editoriais junto de estagiários ou outros profissionais de informação. A solução, em casos destes, passa por "punir o orientador do estágio" ou "o administrador" que intervenha em competências editoriais - como o do director, também presidente de um clube de futebol de uma cidade, que impôs nas suas rádios locais um texto por si escrito a denegrir a oposição na sua agremiação desportiva.
Mas não são razões de precariedade que explicam estes casos, defende Ana Sá Lopes: "Tem a ver com seriedade e é tão possível acontecer com estagiários, como com os outros".




"Mercado cada vez mais agressivo" ajuda ao atropelo de regras. "Tendência é para piorar"


Jornais agressivos "pisam" ética


Um "mercado cada vez mais agressivo" na comunicação social tem ajudado ao atropelo diário das regras do jogo. O lamento é geral, constatou o PortugalDiário, depois de ouvidos editores de diferentes jornais. "E a tendência é para piorar", antecipa Luís Nunes, editor-executivo do Tal & Qual.
Os casos sucedem-se: há dias, quando da notícia do favorecimento de um ministro à filha de outro ministro, a SIC e a TVI apresentavam uma investigação "exclusiva". Que era a mesma, só que com dados diferentes e complementares. Na sexta-feira passada, O Jogo mostrou em "exclusivo" as fotografias de uma brincadeira de jogadores do Benfica, que vinham publicadas na generalidade da imprensa.
Também na sexta-feira, O Independente publicou uma fotografia do procurador João Guerra, responsável da investigação à Casa Pia, que o 24 Horas diz ser sua. Pedro Tadeu, director deste diário, relatou ao PortugalDiário que o semanário lhes solicitou a fotografia e que - perante a recusa do fotógrafo e do jornal na sua cedência - digitalizaram a imagem e manipularam-na, sem qualquer referência à fonte.
E quando são notícias?, quis saber o PortugalDiário. Aqui as leituras divergem: "Todo o trabalho alheio devia ser citado", defende Ana Sá Lopes, editora de Política do Público; "esse comportamento é pouco digno, mas toda a notícia tem um prazo - que, no caso de um diário é de 24 horas -, a partir daí é do domínio público", argumenta Pedro Tadeu. E exemplifica: "O Diário de Notícias, por absurdo, dá um notícia, só deles. Já assegurou o seu exclusivo por 24 horas, o que é fantástico. Os outros jornais, no dia seguinte, não podem ignorar a notícia, tentam-na trabalhar o melhor possível, conseguir novos ângulos" - e publicá-la.
A internet ainda é uma boa fonte de ideias e notícias para a comunicação social "tradicional", diz Luís Sobral, director do jornal desportivo on-line MaisFutebol. O custo dos cartazes de Santana Lopes e o IVA cobrado pelos telefonemas de solidariedade com as vítimas dos incêndios fizeram manchete no PortugalDiário, para - menos de 24 horas depois - estarem noutros diários. Sem citação. "Há quem ache que é uma fonte de informação menor, que não é!", diz Sobral. E tenta explicar: "Quando vão à "net", as pessoas sentem-se à vontade para pegar numa história, por entenderem que não chegou a toda a gente".
A prática do Público é "atribuir a quem deu" uma informação, explica Ana Sá Lopes. Luís Sobral concorda: "O Público é o jornal que está mais próximo daquilo que devia ser a prática dos outros. É um bom modelo". Mas, para a editora daquele diário, "há coisas que causam dúvidas". E acrescenta um dado à discussão - sobre a informação internacional: "Tenho muitas vezes dúvidas sobre os textos irem assinados", diz, lembrando que essa é a prática no seu jornal.
O director do MaisFutebol relata casos em que "notícias internacionais, recolhidas noutras fontes e que são indicadas", aparecem depois "descobertas" por outros. É a lei do menor esforço, argumenta Luís Sobral. "Poupa-se dinheiro nas redacções e aproveita-se o trabalho alheio".
"Picar" uma notícia "mostra falta de criatividade", sublinha Luís Nunes. "Há coisas que são uma tremenda falta de ética", "lê" o editor-executivo do Tal & Qual. Mas reconhece ter dúvidas nalguns aspectos: o seu semanário desenvolve muitas notícias publicadas durante a semana - e "não citamos a origem, mas se calhar devíamos fazê-lo".
Também Pedro Tadeu defende que se deve "caminhar para evitar fontes anónimas". O que inclui sites: "Se a fonte é um site, para credibilizar a informação temos de dizer qual é a fonte", defende o director do 24 Horas. Luís Sobral não pode estar mais de acordo: "Numa altura em que o conteúdo tende a massificar-se, é importante que não seja "sugado" dez minutos depois de estar feito". Afinal, lembra, "toda a gente se inspira em toda a gente, é impossível inventar algo todos os dias, mas a única possibilidade é haver respeito".


E, no meio de tantas falcatruas, trocas e baldrocas, os patrões lá vão enfiando os cobres no bolso. Como se ninguém soubesse que tudo isto acontece a torto e a direito em todas as redacções do país. Afinal, o que interessa é chegar primeiro; os meios que se utilizaram para lá chegar, não interessam para nada.
E este é que é, infelizmente, o jornalismo que se pratica neste rectângulo à beira mar plantado.
Aguardam-se, contudo, outros pontos de vista.